É comum que, em momentos de violência generalizada em protestos, comunicadores também sejam vítimas de abusos da polícia, sendo muitas vezes feridos, detidos ou tendo seus equipamentos danificados ou mesmo retidos. Nos protestos contra a Copa do Mundo, isto não foi diferente. Ao longo dessas manifestações, ocorreram muitas repressões desferidas diretamente contra comunicadores, sobretudo na época em que o megaevento era realizado. Muitos profissionais da comunicação foram diretamente impedidos de realizar essa cobertura. Abaixo, esses e outros casos emblemáticos de violência contra comunicadores cobrindo protestos.

Casos emblemáticos contra comunicadores

O papel da imprensa

Uma reflexão importante sobre os acontecimentos sofridos pelos profissionais de comunicação que cobrem manifestações é justamente sobre a relação da imprensa com os protestos ocorridos no Brasil entre o início de 2014 e junho de 2015. Como já mencionado anteriormente, a ARTIGO 19 realiza desde 2013 um monitoramento dos protestos no país. Para a realização deste estudo, houve uma grande dificuldade de encontrar informações sobre algumas manifestações e temas relacionados a elas.

Enquanto alguns temas ganhavam especial atenção da mídia, com grande riqueza de detalhes sobre pautas adotadas pelos manifestantes, quantidade de pessoas presentes, quantidade do efetivo policial, etc, outros temas eram cobertos de maneira bem simplória e com poucos dados. A diferença entre a quantidade de informações dos protestos de oposição à presidenta Dilma Rousseff e os protestos relacionados à greve dos professores em São Paulo, por exemplo, é uma demonstração de uma dedicação desigual a temas de similar relevância para a opinião pública brasileira.

Veículos de comunicação devem ser transparentes quanto a sua atuação, já que são responsáveis pela busca de informações e pela formação de opinião da sociedade. É importante separar claramente o que é notícia e o que é posicionamento editorial, de modo a possibilitar que a sociedade avalie a opinião expressa de acordo com os fatos reportados.

Essa cobertura questionável dos veículos de comunicação no Brasil abre espaço para que episódios lamentáveis ocorram, como repórteres sendo hostilizados em protestos. O profissional que vai a campo apurar informações e acompanhar acontecimentos dificilmente é quem decide a linha editorial do veículo, mas acaba sendo identificado e tratado como tal. Dessa maneira, as empresas midiáticas têm que compreender a sua responsabilidade em zelar pela segurança dos seus profissionais, ainda que de maneira indireta, ao refletir sobre como a sociedade em seus distintos setores as vê e o que um representante do seu veículo pode sofrer ao acompanhar na linha de frente determinado acontecimento.


Violência dos manifestantes

Não foram somente as autoridades que demonstraram pouca tolerância à liberdade de expressão e ao exercício profissional de comunicação no cenário nacional recente. Alguns manifestantes também agiram de maneira intolerante quando a imprensa desempenhava seu trabalho.

Para sintetizar as ocorrências ao longo deste um ano e meio, é possível categorizar algumas das reações dos manifestantes e situá-las em determinados protestos. Tanto nos protestos contra a Copa, quanto nas manifestações que voltaram a ocorrer no início de 2015 contra o aumento da tarifa em algumas cidades brasileiras, houve casos de hostilização e violência contra comunicadores por parte dos manifestantes. O mesmo aconteceu nos protestos a favor do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, que ocorreram logo após a sua reeleição em outubro de 2014 e que se intensificaram no primeiro semestre de 2015. Motivados por questões ideológicas, ora pelos profissionais representarem veículos da imprensa tradicional e serem tidos como parciais na cobertura, ora pelos profissionais representarem veículos da imprensa tida como alternativa – e isso significar “lados opostos” -, manifestantes impossibilitaram o trabalho da imprensa e intimidaram profissionais.

É importante questionar e condenar atos violentos de manifestantes com relação à imprensa. No entanto, para a ARTIGO 19, a reação abusiva das autoridades deve ocupar o centro de uma análise de violações a comunicadores no contexto de manifestações. Primeiro, porque as forças de segurança têm uma capacidade maior de atingir esses profissionais; segundo, porque os manifestantes o fazem de maneira pontual e não organizada, enquanto a ação dos agentes policiais representa uma política de Estado. Por último e primordial, o Estado é quem deveria estar zelando pela segurança desses profissionais – e de todos presentes na manifestação – por compreender que eles estão ali desempenhando uma função e que devem ter condições físicas e mentais para exercê-la.